Agosto e Álbum de família: nuances entre a peça de teatro brasileira e o filme americano


Quando comprei o filme “Álbum de Família” em setembro já estava planejando assistir a montagem brasileira da peça de teatro americana. Por esse motivo resolvi esperar para ver o filme somente quando assistisse à peça, pois queria conhecer toda a trama sem referências anteriores.

Depois de assistir as duas versões resolvi fazer uma análise sobre o filme e a montagem brasileira de Agosto mostrando meu parecer sobre as diferenças que notei em ambas as versões, e sobre como a montagem teatral se destacou mais para mim.

A peça originalmente se chama “August: Osage County” e é escrita pelo dramaturgo Tracy Letts. A peça estreou em 2007, e se destacou no cenário americano ganhando importantes prêmios como o Tony e o Pulitzer. Em 2013, por adaptação do próprio Letts, estreou a versão cinematográfica da peça, ganhando no Brasil o título de “Álbum de Família “com Meryl Streep e Julia Roberts nos papéis principais.



A história se inicia quando Bev Weston contrata Johnna, para trabalhar como empregada em sua casa e ajudar a cuidar de sua esposa Violet, que faz tratamento contra um câncer na boca. Já nesse início já é possível perceber como ambos os personagens lidam com seus próprios conflitos, afinal Bev é alcoólatra e Violet viciada em remédios.

Na peça teatral uma das falas de Bev ilustra bem as fragilidades dos dois personagens.

“Eu não bebo porque ela toma comprido, agora se ela toma comprimido porque eu bebo...”

Nesse início também se tem conhecimento que o patriarca da família, além de professor é um poeta, que sempre viveu as sombras de seu único livro de poemas lançado na década de 60, depois disso não conseguindo mais escrever e atingir a perfeição de sua única obra lançada.

A origem do nome da peça se deve por causa do calor presente em agosto, no meio oeste americano. O calor é considerado como um dos principais elementos da história, pois durante o decorrer da narrativa sempre é mencionado por um personagem ou outro.

A família foi se dispersando com os anos, com exceção de Ivy, a única filha que continuou morando na mesma cidade dos pais, enquanto suas irmãs Barbara e Karen vivem em outras cidades. Isso até o desaparecimento de Bev forçar uma reunião de família para descobrirem o que aconteceu com o patriarca.

Numa noite, as notícias que chegaram sobre Bev não foram boas. A família fragmentada se reúne após o funeral do patriarca. Onde cada um tem que lidar com seus próprios problemas, e ainda se soma as revelações cruas que são feitas durante o jantar.

Todos têm suas fraquezas e defeitos. São personagens bem construídos e humanizados. A falta de diálogo entre eles culmina em todos os conflitos presentes na narrativa. Nesta parte destaca-se o embate entre Violet e Barbara, a filha mais velha, que entram em conflito uma com a outra por conta de suas personalidades semelhantes.

Cada personagem tem seu momento na trama, no entanto achei os da versão teatral mais bem construídos. Cada um lidam com seus próprios conflitos pessoais. Barbara e sua recente separação de Bill, além do complicado relacionamento com a filha adolescente. Ivy que não sabe como contar a família o fato de ter se envolvido com seu primo Charles Júnior. Karen, querendo encontrar a felicidade ao lado de Steve, com isso optando por não enxergar o comportamento do noivo com Jean, a filha adolescente de Barbara. Mattie Fae, irmã de Violet, e sua relação com o filho Charles Junior que ela constantemente deprecia funcionou melhor na montagem teatral. Sem falar em Charles, marido de Mattie Fae que tem um dos melhores momentos cômicos da narrativa.  

As diferenças entre a montagem teatral e a cinematográfica são muito evidentes. Enquanto a montagem teatral seguiu um viés mais claustrofóbico, com as cortinas da casa vedadas de preto, e os personagens tendo que viver na penumbra, reforçando ainda mais a sensação de calor sentida durante toda a peça. Sem contar o fato de que a peça se passa apenas dentro da casa de Violet, com três ambientes distintos em cena, reforçando ainda mais essa sensação de se estar preso em um só ambiente. Já o filme, não se passa apenas em um ambiente, onde se perdeu um pouco da sensação passada pela peça.

Outra coisa que me chamou atenção entre as duas montagens, foi a versão cinematográfica ter dado menos enfoque a Johnna, enquanto na peça teatral a importância da personagem é maior. Ela era um símbolo neutro, já que era a única que não tinha envolvimento direto com os conflitos familiares, o que fazia a personagem transitar entre os personagens como uma espécie de narradora.

Agosto, título da montagem da peça no Brasil, ganhou ainda mais agilidade após o cruzamento entre os textos, onde duas cenas aconteciam em paralelo. Tudo foi feito de uma forma tão brilhante, que as cenas mesmo distintas se complementavam entre si.

Aliás, a comicidade presente na dramaturgia da peça também funcionou melhor no teatro, o que acabou dando mais equilíbrio entre as cenas mais densas. Além de que após o riso, ele era sempre acompanhado de boas reflexões.

Para finalizar, a sutileza de algumas cenas da montagem brasileira funcionou perfeitamente, como por exemplo uma cena de Jean, filha de Barbara e Bill, sofrendo pela separação recente dos pais. No entanto, a mais impactante para mim foi no momento que sufocada por todas as revelações feitas, mostra Barbara tomando alguns dos comprimidos da mãe, uma cena simples, mas carregada de muitos significados.

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7 comentários:

  1. Que interessante sua análise! Não tive a oportunidade de assistir a peça nem ao filme, mas parece uma produção bem construída. Bacana demais poder fazer este pararelo!!! Gostei da história que a obra apresenta!

    O filme ainda terei chance de assistir, mas a peça ficarei apenas na vontade. srsr

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  2. Eu amo adaptações de filmes para peças de teatro porque você "sente" mais quando vai ver a apresentação.
    Eu ainda não vi nenhum, mas irei procurar assistir pelo menos o filme.

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  3. Oi Mirella,
    Eu só assisti duas peças na minha vida, embora tenha gostado bastante. Na minha cidade não tem teatro infelizmente. Adorei sua resenha sobre as duas adaptações, não conheço a peça e nem o filme, mas vou procurar parece ser muito bom, as tramas familiares sempre é interessante.
    Abraços

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  4. Quer interessante.
    Vou ser sincera que é a primeira vez que vejo alguém comprando teatro com cinema, na qual, acho delicado de se fazer.
    Já que são duas artes muito diferentes. Embora ambas sejam de atuação.
    Acredito que o filme por se tratar de atrizes e suas exigências o roteiro precisa ser reformulado.
    Agora a história me parece bem interessante porque fala de convivência entre duas mulheres (no caso três).

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  5. Não sou uma fã de peças de teatro, mas admiro muito as adaptações que conseguem fazer dessa arte. É incrível. Abraços!

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  6. Olá! Nossa, achei suuuuuuuper legal essa matéria. Já vi e fiz comparações entre livro e filme, mas achei demais mesmo ver uma de peça e filme. Eu achooooo que já vi esse filme, mas não to confiando na minha memória. Fiquei com vontade de ver a peça. Beijos
    https://almde50tons.wordpress.com/

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  7. Oi, tudo bem? Gosto muito de assistir peças de teatro. Uma pena aqui na minha cidade não terem tantas quanto gostaria. Essa em especial não conhecia mas gostei bastante da análise feita por você. Um abraço, Érika =^.^=

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